Estrutura, afiguração e “jogos de linguagem” em Wittgenstein

Estructure, figuration and “language games” in Wittgenstein


Autor: Rodrigo Guimarães1

Filiación: Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, Brasil.

E-mail: rodrigo.guima@terra.com.br



RESUMO
Este artigo analisa o deslocamento de alguns conceitos basilares que fundamentam as obras Tractatus logico-philosophicus e Investigações filosóficas de Ludwig Wittgenstein. Busca-se rastrear as formulações iniciais do filósofo austríaco sobre a diferença entre dizer (sagen), mostrar (zeigen) e afiguração, evidenciadas em sua primeira obra (Tractatus) e os possíveis desdobramentos que vieram a culminar nos conceitos de familienähnlichkeit (semelhança de família) e de jogos de linguagem, elaborações profícuas para o pensamento da “desconstrução” e para a Teoria Literária.
Palavras-chave: Ludwig Wittgenstein, afiguração, jogos de linguagem, desconstrução, filosofia analítica.
ABSTRACT
This paper attempts to analyse the movement of the main concepts presents in the books Tractatus logico-philosophicus and Philosophical Investigations by Ludwig Wittgenstein. It aims to show the difference of concepts as sagen (to say), zeigen (to show) and logical form (Tractatus), and also, emphasize their extended into concepts as familienähnlichkeit (family resemblance) and language-games. This conception of writing is very significant for the utilization of deconstructing processes in the Literary Theory.
Keywords: Ludwig Wittgenstein, figuration, language games, deconstruction, literary theory, analytic philosophy.




Suponhamos que cada um tivesse uma caixa e que dentro dela
houvesse algo que chamamos de “besouro”. Ninguém pode olhar
dentro da caixa do outro; e cada um diz que sabe o que é um besouro
apenas por olhar seu besouro. Poderia ser que cada um tivesse algo
diferente em sua caixa. Sim, poderíamos imaginar que uma tal coisa se
modificasse continuamente. Mas, e se a palavra “besouro” tivesse um uso
para essas pessoas? Neste caso não seria o da designação de uma coisa.
Wittgenstein





O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi o autor de uma obra sem paralelo na história da filosofia, o Tractatus logico-philosophicus, que apresenta como meta chegar às últimas conseqüências de uma reflexão sobre os fundamentos da lógica e da linguagem. Em poucos anos, o Tractatus (seu único livro de filosofia publicado em vida) tornou-se um dos textos mais comentados na história do pensamento no século XX. A ambição dessa obra é sem limites: dar conta (em menos de oitenta páginas de aforismos categóricos) dos problemas filosóficos fundamentais. Seu argumento principal é que o entendimento incorreto da lógica da linguagem sustentou as formulações filosóficas e metafísicas. Para Wittgenstein, muitas das questões ditas genuínas não passam de charadas lingüísticas. Por isso, a pretensão do Tractatus é traçar um limite para a expressão dos pensamentos. Esse limite deve estar na linguagem, e o que está além desse limite é um contra-senso. Daí a sua célebre afirmação: “O que se pode em geral dizer, pode-se dizer claramente”. Com uma escrita irreverente que não se preocupa em citar fontes “porque me é indiferente que alguém mais já tenha, antes de mim, pensado o que pensei”, o jovem Wittgenstein desenvolve uma enunciação híbrida. Fala do lugar do saber (em tom quase oracular) para, depois, desdenhá-lo. No final do prefácio do Tractatus, vê-se esse movimento:

A verdade dos pensamentos aqui comunicados parece-me intocável e definitiva. Portanto, é minha opinião que, no essencial, resolvi de vez os problemas. E se não me engano quanto a isso, o valor deste trabalho consiste, em segundo lugar, em mostrar como importa pouco resolver esses problemas.

Wittgenstein quis conciliar o idealismo de feição schopenhauriana com o positivismo da filosofia da linguagem, e superar, por meio de uma aforística fragmentária e radical, a contraposição entre realidade, pensamento, lógica e linguagem. Após a publicação do Tractatus (1921), houve um período de silêncio e afastamento da filosofia, que durou aproximadamente oito anos. Em 1929, época citada por alguns críticos como “a virada”, constituiu-se de crítica e negação do Tractatus, dando início a uma segunda filosofia, porém sem obras. Muitas de suas publicações póstumas são decorrentes das anotações, por parte de seus alunos das conferências pronunciadas em Cambridge, onde Wittgenstein lecionou filosofia analítica. No entanto, somente a sua obra Investigações filosóficas, concluída em 1945, foi organizada pelo próprio Wittgenstein com o propósito de publicá-la. Mas parece que ele teve dificuldades em colocá-la em sua forma final e definitiva, deixando-a para publicação póstuma. Quase todas as outras publicações póstumas, como os livros Azul e Castanho, Gramática filosófica, Observações sobre a cor, Notas sobre lógica e Cadernos de notas, encontram-se reformuladas ou aprofundadas nas Investigações filosóficas, sendo esta fundamental pelo seu conceito de “jogos de linguagem”, elaboração profícua para o pensamento da “desconstrução” que sucedeu ao legado tractariano (deve-se assinalar que “a” desconstrução são várias e fala muitas línguas).

Ao abandonar o ideal de uma linguagem perfeita, sem ambigüidades (como se vê no Tractatus), Wittgenstein reformulou tudo de forma igualmente radical, e a linguagem deixa de estabelecer uma relação proposicional com a realidade (ou buscar algum tipo de essencialidade) para reviver o signo em sua forma de uso na linguagem ordinária: “O que está oculto não nos interessa”. No prefácio de Investigações filosóficas, Wittgenstein refere-se ao Tractatus como “o seu velho modo de pensar” e reconhece os “graves erros” de seu primeiro livro. Ao contrário do Tractatus, Investigações filosóficas mina o seu antigo campo de certezas: “Entrego-as à publicação com sentimentos duvidosos . . . Gostaria realmente de ter produzido um bom livro. Tal não se realizou: mas passou-se o momento em que poderia tê-lo corrigido”. Em uma prosa coloquial e clara, Investigações Filosóficas apresenta a suma de sua “segunda” filosofia, que se desenvolve à maneira de diálogo entre Wittgenstein e um interlocutor anônimo cujas falas são assinaladas com aspas. Entretanto, em certas ocasiões fica patente a dificuldade de identificar “quem fala” nessa estrutura dialógica, o que confere a essa “conversa filosófica” um caráter bastante peculiar. Mas o que sobressai em Investigações Filosóficas, assinalado com agudeza por Erik Stenius, é a maneira como Wittgenstein desloca os limites de uma razão teorética (um dos marcos fundantes de Tractatus que adere ao atomismo lógico) para os limites da linguagem.

Para muitos críticos da atualidade, o pensamento de Wittgenstein constitui uma reserva de frases e axiomas que justificam quase tudo, que posteriormente foi denominado “desconstrução”(Giron 49). Se acompanhada das devidas ressalvas, sem a escansão do “quase tudo” que lhe confere Luís Antônio Giron, pode-se dizer que a contribuição do filósofo austríaco foi de vital importância para uma maior consistência teórica de um corpus “desconstrutor”, juntamente com Jacques Derrida, Maurice Blanchot, Gilles Deleuze e outros.

O Tractatus é um “celeiro” de formulações originais para a sua época e ainda capaz de gerar releituras fecundas de muitas de suas proposições. Entretanto, serão tratadas aqui somente duas delas: a) a diferença entre dizer (sagen) e mostrar (zeigen) que causou, e ainda causa, tantos mal-entendidos; e b) a noção de afiguração, com nuanças que escapam ao conceito de estrutura em uma acepção representativa (no sentido de substituição).

Wittgenstein, na sua filosofia inicial (Tractatus), desenvolve uma concepção de linguagem que se assenta na tese da inefabilidade semântica. Essa posição assinala a impossibilidade de observar a linguagem como se estivéssemos fora dela; portanto, de descrevê-la como fazemos com os objetos passíveis de especificações. O pressuposto desse ponto de vista é de que, para utilizar a linguagem para falar de algo, é necessário apoiar-se numa rede estável e estabelecida de significações já implicada de antemão. Diante da impossibilidade de dizer o que é a semântica, Wittgenstein contornou esse impasse criando os conceitos de dizer e mostrar. A inexprimibilidade da linguagem é um pressuposto tractariano que diz respeito à forma lógica, e não metafísica. A proposta de Bertrand Russel (no prefácio do Tractatus) sobre a possibilidade de uma metalinguagem para falar de uma dada linguagem desagradou a Wittgenstein, não só porque demonstrou que Russel discordava cordialmente de seu conceito de mostrar, mas também por ter desconsiderado a formulação central tractariana, a afiguração, que interrompe o argumento sofístico da “regressão ao infinito”, ou seja, de uma linguagem que trata da estrutura da primeira linguagem, que necessita de uma terceira, que diz respeito à estrutura da segunda, e assim sucessivamente.

A questão colocada pelo Tractatus sobre o conhecimento é incisiva e determinante: o que é possível conhecer por meio dos instrumentos de que dispomos? Essa indagação é desconcertante para toda a metafísica, pois pretende invalidar a pretensão e a legitimidade de conhecer, pelo método discursivo e argumentativo, o objeto metafísico por excelência: o essencial, o incondicionado, o absoluto, o ser. Essa aporia, observa Luiz Henrique dos Santos na introdução ao Tractatus, já foi aberta pelas escolas “menores” da Antiguidade, a sofística e o ceticismo, e, mais recentemente, por Hume e Kant. Entretanto, de forma original e avassaladora, o Tractatus busca abalar, ao questionar a própria natureza da linguagem, um dos pilares fundamentais da filosofia: a possibilidade de um conhecimento representativo que anuncia, por intermédio da proposição, o que as coisas são e não são, desdobradas na afirmação de verdadeiro ou falso quando confirmadas ou negadas na realidade.

A proposição, de acordo com o Tractatus, é uma figuração dos fatos, e tem em comum com eles certa estrutura. Ela não figura um objeto, uma coisa, mas um estado de coisas que é a ligação de objetos. Percebe-se aí uma divergência dos nominalismos tradicionais das escolas filosóficas ou da “visão agostiniana da linguagem”, em que o significado das palavras é dado por aquilo que elas substituem (associação do signo ao objeto). Aliás, não há no Tractatus uma concepção fixa do tipo nome-coisa, pois o nome só tem significado no contexto de uma proposição (3.3)2.

Embora exista, em certo sentido, uma concepção próxima ao conceito de representação (figuração), há diferenças fundamentais: não se trata de nomes ou de uma cadeia de nomes para representar (substituir) objetos ou fatos, mas de uma relação isomórfica de estruturas, ou seja, uma correspondência de tipo especular entre linguagem e realidade. É possível dizer, de forma pouco rigorosa, que no Tractatus a proposição representa (figura) os fatos. Porém, não é o mesmo de um “como se” da relação analógica, e sim de uma relação biunívoca com pretensões a um paralelismo. A figuração é um modelo da realidade e consiste “em estarem seus elementos uns para os outros de uma determinada maneira” (2.14). Mas o que Wittgenstein tenta destacar não é o conceito de figuração, e sim de afiguração, que diz respeito à relação entre o representante (figura) e o representado (afigurado): “é a possibilidade de que as coisas estejam umas para as outras tal como os elementos da figuração” (2.151). É a partir desse paralelismo que a figuração se enlaça com a realidade. Wittgenstein recorre à imagem de uma régua que tangencia a realidade, porém “apenas os pontos mais externos das marcas das réguas tocam o objeto a ser medido” (2.15121). E o que são os “pontos internos” da régua? Essa é a questão tractariana por excelência, pois é bem aí que a régua não está marcada. Assim, nada se pode dizer a esse respeito, apenas mostrar. Entretanto, esse mostrar é efetivado pela linguagem, em sua materialidade (régua), embora sua forma lógica não possa ser descrita. É justamente nesse ponto que ocorre o equívoco de Maurice Blanchot em A escrita do desastre, ao criticar a crença de Wittgenstein quando ele diz que o indivíduo mostra quando não pode dizer. Prossegue Blanchot: “mas sem a linguagem, nada pode ser mostrado”3.

O mostrar tractariano, embora contenha aspectos de transcendentalidade, de forma alguma se encontra em algum lugar fora da linguagem. Essa parte da régua, mesmo que não esteja marcada, ainda é a régua, é linguagem em sua materialidade proposicional. Se a forma lógica da afiguração não pode ser designada diretamente, assim como o conceito de inconsciente na psicanálise ou de indecidível para Derrida, isso não implica um comprometimento teórico com as formulações metafísicas. Pelo contrário, as proposições tractarianas restringem a linguagem e o pensamento de forma rigorosa, advogando que não podemos representar “na linguagem algo que ‘contradiga as leis lógicas’”, pois não podemos pensar ilogicamente. A mesma dificuldade, prossegue Wittgenstein, encontraríamos ao tentar “representar na geometria, por meio de suas coordenadas, uma figura que contradiga as leis do espaço” (3.032).

Sem dúvida que há no Tractatus uma dose considerável de idealismo (na esteira de Leibniz, Frege e Russel), principalmente nas postulações que visam construir uma linguagem logicamente perfeita, interditando a vagueza da linguagem “natural” e as proposições que abrigam tautologias e contradições (“pois elas não figuram a realidade”). No entanto, a um só tempo, Wittgenstein desfere duros golpes no arcabouço metafísico alicerçado nos conceitos de ente e ser, pois não compete à proposição dizer nada sobre o que as coisas são: “Uma proposição só pode dizer como uma coisa é, não o que ela é” (3.221). É nesse horizonte que interrogo: Qual é a forma em que ela diz como uma coisa é? Mostrando. “O que pode ser mostrado não pode ser dito” (4.1212). Entretanto, esse mostrar dá-se pela multiplicidade lógica, por meio de propriedades da estrutura dos estados de coisas em relação isomórfica com as estruturas formais da linguagem. O que é mostrado não é nenhum objeto abstrato ou metafísico, e sim a estrutura da preposição que apenas demonstra (ou melhor, mostra) que “as coisas estão assim”4.

Sob essa perspectiva não platônica da representação, a filosofia, de acordo com Wittgenstein, não pode constituir um corpo de doutrinas, pois ela não passa de uma análise crítica da linguagem que elucida as proposições dotadas de significado e denuncia aquelas que ultrapassam os limites do sentido. Essa é a “virada lingüística” da filosofia analítica do século XX.

Se, de um lado, não há uma concepção estritamente metafísica no Tractatus, de outro, há uma zona de indeterminação (mostrar, afigurar) que não foi mais considerada nas reformulações posteriores de Wittgenstein. Após a “virada” de 1929, o princípio norteador do Tractatus sobre as regras da linguagem “refletindo” a estrutura da realidade é completamente abandonado. O vínculo mundo-linguagem, as relações de concordância entre proposição projetada sobre a realidade sustentada pelo conceito de mostrar foram substituídas por outras elaborações. No Livro azul (1933-1934), por exemplo, Wittgenstein faz um paralelo entre “o que pode ser dito” e “o que é permitido num cálculo”, e critica suas formulações tractarianas que presumem que a lógica determina a unidade da linguagem (o que pode ou não ser considerado como proposição, sendo a tautologia e a contradição pontos limítrofes de sua possibilidade). Essa suposta unidade, diz Wittgenstein no Livro azul, deve-se ao desejo metafísico de generalidade que tanto estorvou a investigação filosófica. Ao examinar a gramática das palavras desejo, pensamento, compreensão e significação, Wittgenstein acaba por concluir que não é possível estabelecer uma definição nítida para o uso delas que coincide com o uso real, e tampouco a definição irá afastar a dificuldade. Afirma ainda que não utilizamos a linguagem de acordo com regras rígidas e exatas, assim como não a aprendemos dessa forma. Fica evidente como Wittgenstein abandonou completamente qualquer referência a uma linguagem ideal e dedicou-se à análise do uso cotidiano da linguagem ordinária. Por conseguinte, teve que substituir o conceito de mostrar por algo que desse conta das novas reformulações. Passou então a utilizar, com crescente insatisfação, os conceitos de definições verbais e definições ostensivas5.

Segundo a interpretação de Merrill Hintikka e Jakko Hintikka, “a dicotomia entre as definições verbais e ostensivas não é senão (210) a oposição dizer-mostrar em novas vestes”. Essa afirmação retém algum valor teórico, desde que seja explicitada a distância entre alguns aspectos irreconciliáveis presentes em contextos díspares. O mostrar da definição ostensiva é de caráter dêitico, ou seja, é acompanhado pelo gesto de apontar e por um contexto de linguagem verbal e não verbal, enquanto o mostrar tractariano, como já visto, diz respeito a uma concordância de estruturas e implica necessariamente a concepção da inefabilidade da semântica, pois essa afiguração não pode ser figurada. O que a analogia de Hintikka não leva em consideração é a ruptura que o segundo Wittgenstein executa com qualquer resquício tractariano de fundo idealista ou metafísico. As demonstrações de definições ostensivas apresentadas por Wittgenstein em muitas de suas fichas e em Investigações filosóficas são retiradas de contexto da linguagem ordinária, tais como situações específicas em que as crianças aprendem termos que só podem ser ensinados por meio de definições ostensivas: palavras designadoras de cores, cheiros, sabores, texturas e sons. Obviamente, Wittgenstein se deparou com as limitações desse método de ensino em diversas situações e reuniu inumeráveis lembretes de impossibilidades, tal é o caso de palavras como “hoje”, “não”, “mas”, talvez”, “justiça” e tantos outros “objetos” ausentes. Mesmo em situações em que há o objeto à frente do observador Wittgenstein se pergunta: “A definição ostensiva não pode ser mal compreendida?” Ao apontar-se para um quadrado de pano vermelho, está-se definindo a forma, a cor ou o pano? Amostras comparativas e sucessivamente aplicadas são suficientes para definir as ambigüidades de todos os casos? Ou é necessário um conjunto de regras já adquiridas para que a definição ostensiva seja efetiva?6. “Quando se mostra a alguém a figura do rei no jogo de xadrez e se diz: ‘Este é o rei do xadrez’, não se elucida por meio disso o uso dessa figura, a menos que esse alguém já conheça as regras do jogo” (Investigações filosóficas 32).

Evidencia-se aí um passo conceitual relevante no desenvolvimento teórico de Wittgenstein: a entrada de dois conceitos que o acompanharam até os seus últimos textos: regra e jogo de linguagem. Estes conceitos deslocam, de forma radical, a linguagem logicista do Tractatus, e a proposição é resituada num lugar de fronteira, entre o lógico e o empírico. Em um de seus últimos textos, Anotações sobre as cores (1950-1951), Wittgenstein, quando se refere ao sentido das proposições, diz que ela surge “ora como expressões de normas, ora como expressões de experiência” (Anotações sobre as cores 23).

Os vestígios metafísicos são inteiramente substituídos pela atitude prática, e as investigações são centralizadas no uso da linguagem, como ela funciona. Aliás, sob essa ótica, não há mais uma concepção de unificação lógica e formal da linguagem, pois esta não passa de uma multiplicidade de jogos em diferentes empregos: indagar, pedir, consolar-se, orar, comandar, representar, traduzir, etc. Também não há, em um jogo de linguagem, a expressão única de uma função comum. Existem somente certas semelhanças, um “ar de família”, parentescos que se combinam. Portanto, é impossível definir com precisão “o que é” um jogo de linguagem, a não ser por meio de aproximações e distinções de traços semelhantes de uma série de jogos.

O termo familienähnlichkeit (semelhança de família), já utilizado por Nietzsche em Além do bem e do mal e reelaborado por Wittgenstein, é de crucial importância na sua segunda filosofia, principalmente para o ataque ao essencialismo ou ao conceitualismo que advoga a necessidade de haver algo em comum em todas as esferas que determinam um conceito, tal como um único fio condutor. O traçado definidor em uma “semelhança de família” é uma complexa rede de semelhanças que se entrecruzam como a sobreposição de diferentes fibras de uma corda7.

Há também nessa formulação um ataque tácito à concepção representativa da linguagem, pois desestabiliza qualquer função do tipo “x representa y”, sendo que x não existe como elemento, nome ou proposição, mas como uma rede de semelhanças que engloba atividades guiadas por regras, mas com margens pouco nítidas. Por não se tratar de um termo unívoco, tampouco de uma família de significados, e sim de significados relacionados, o conceito sofreu freqüentes objeções. Seja como for, Wittgenstein não propôs que todos os conceitos sejam determinados por semelhança de família, se bem que esse parentesco é o que melhor se aplica à finalidade dos jogos da linguagem.

Desde o Livro azul, Wittgenstein começou a utilizar um feixe de termos que se assemelham entre si, tais como cálculo, regra, jogos. Cada vez mais se tornou preponderante nos escritos posteriores a utilização do conceito de jogo em vez de cálculo, sendo que o último pressupõe a existência de coordenadas explícitas. Na realidade, os jogos de linguagem têm um alcance mais amplo do que os atos de fala, pois eles também consistem em certas ações no ambiente não-lingüístico, tais como o tom em que se pronunciam as palavras, a expressão facial e muitos outros lances8.

Mesmo com toda a dificuldade de finalizar a sua obra Investigações filosóficas, Wittgenstein deixou claro que os jogos de linguagem não são “estudos preparatórios para uma futura regulamentação da linguagem”, à maneira de um método de aproximação progressiva. Eles figuram mais como objetos de comparação, critério de semelhanças e dessemelhanças, “uma ordem dentre as muitas possíveis; não a ordem” (132). Portanto, não há um movimento de um jogo menos completo em direção a uma suposta completude. Em O livro castanho, Wittgenstein declara que os jogos são linguagens completas, de tal modo que certas funções gramaticais em uma dada linguagem não teriam equivalente em outra. Segue-se daí uma intraduzibilidade entre jogos de linguagem. Há um espaço de descontinuidade, de perda, que só pode ser “preenchido” pelo processo de exemplificação com jogos aparentados. Por isso que Wittgenstein recusa a idéia de representabilidade em sua forma de investigação, pois os jogos de linguagens se constituem de operações e relações que não são da ordem da substituição, e sim de fruição entre (des)semelhanças. Daí a sugestão do conceito de “apresentabilidade”, desde que inserido em determinado meio de apresentação. Este “determinado meio de apresentação” é fundamental para a forma “desconstrutora” utilizada por Wittgenstein em Investigações Filosóficas. Ao propor alguns lances em relação à palavra “composto”, ele demonstra como o jogo de linguagem envolvido irá determinar diferentes formas de significação de “composto”. O tabuleiro de xadrez pode ser composto por sessenta e quatro quadrados negros e brancos, ou das cores branca e negra, ou ainda do esquema da rede de quadrados. O exemplo pode parecer banal, mas as suas implicações não o são.

A partir de diferentes jogos de linguagem, Wittgenstein desconstrói conceitos fundamentais para a metafísica, tais como o ser e o não-ser de um elemento fora de um jogo de linguagem. Em suma, o modelo deixa de ser algo apresentado e transforma-se em meio de apresentação. Ao invés de “x existe”, pode-se falar que “x” tem significação no uso da linguagem. No entanto, não se pode falar que a palavra não tem significação na ausência de um objeto que lhe corresponda. Wittgenstein rebate este argumento evocando o exemplo do Sr. N, que morre: “diz-se que morre o portador do nome, e não que morre a significação do nome” (40). A significação de uma palavra é seu uso na linguagem e, em certos jogos, independe da “existência ou não” do besouro dentro da caixa (ver epígrafe). Em outras palavras, determinados jogos de linguagem tanto invalidam as proposições tractarianas quanto as concepções idealistas (com suas entidades não materiais), realistas e solipsistas9.

De certa maneira, a formulação wittgensteiniana de jogos de linguagem possibilita o deslocamento de qualquer instância de verdade. Para tanto, é necessário criar novos jogos “aparentados” capazes de flexibilizar as regras dos jogos anteriores. Em Anotações sobre as cores, há uma exemplificação desse caso. Trata-se da palavra xadrez, que é entendida de forma diferente por aquele que aprendeu o jogo “e por aquele que o não aprendeu” (75). Os dois grupos saberão utilizar a palavra xadrez, embora possam utilizá-la em jogos diferentes. Ao inserir essa dessemelhança evocando um segundo grupo, que conhece as regras do xadrez, Wittgenstein descoloca a verdade (conjunto de regras) do primeiro jogo, sem, contudo, invalidá-lo. No entanto, não há um relativismo nas formulações wittgensteinianas. Em sua obra Da certeza, ele tenta demonstrar que em certos jogos a dúvida perde o sentido. Porém, ainda na mesma obra, vê-se um contraponto: o jogo de linguagem não é razoável ou irrazoável, pois ele não se baseia em fundamentos. Pode-se objetar: Não se trata de uma espécie de relativismo, em que basta inserir outros jogos de linguagem para invalidar qualquer pressuposto (jogo precedente)? Então, o que possibilita a Wittgenstein falar de uma “confusão filosófica”? Tal confusão não seria apenas mais um jogo? Não. A “confusão”, em seu sentido amplo, ou a possibilidade de erro, ocorre quando há um “entrecruzamento de jogos de linguagem, isto é, da utilização de palavras de um jogo de linguagem conforme as regras de outro jogo” (Glock 228)10.

Ao se considerar esses jogos de deslocamento da “verdade” como uma atividade “desconstrutora” evidencia-se o limite dessas operações: “se o que é regra se tornasse exceção e o que é exceção, regra, ou se as duas se tornassem fenômenos mais ou menos igual –então nossos jogos de linguagem normais perderiam seu sentido” (142).

Indubitavelmente que Wittgenstein reconhece em seus jogos de linguagem “o conceito pouco nítido”, “a fotografia imprecisa”, aquilo “que se tornou impuro”, como se viu, mas ainda assim há em Investigações filosóficas uma forte carga de funcionalidade do “inexato” na compreensão do texto. Diferentemente de uma abordagem utilitária (no sentido semântico ou de uso na linguagem), Derrida assinala outro valor para o “inexato” que emerge no texto, o que ele denomina, entre outros termos e operações, de “indecidível”11.

Há nos textos derridianos uma ampla cadeia de indecidíveis. São, em alguns casos, unidades de simulacro, falsas propriedades verbais (nominal ou semântica), vocábulos singulares que confundem ou desfocam o ato da significação ou as oposições filosóficas, perturbando a articulação do logos como valor de discernibilidade entre o falso e o verdadeiro. Em suma, os indecidíveis, enquanto articulação textual, inscrevem dilemas sem resolução; jogam sobre a barra flexível do e/ou; promovem quiasmas e paradoxos; e possibilitam lacunas na legibilidade do texto.

O hymen, por exemplo, palavra que Derrida vai buscar no texto de Mallarmé, não se deixa significar pela lógica da identidade aristotélica. Seu movimento de dupla negação (nem confusão, nem distinção, sendo ao mesmo tempo “ou bem isso, ou bem aquilo”), seu entre (não topológico) adquire uma força que só pode ser avaliada na “estrutura” da escrita mallarmeana, promovendo uma operação irredutível que impossibilita sua extração do texto de “origem” e sua fixação como conceito, categoria ou, mesmo, “vaga noção”. Os indecidíveis impedem, de saída, efeitos de sinonímia, operações de substituição (equivalência ou analogia) articuladas por outros termos de igual valor e sentido. O hymen, ao significar “membrana” ou “casamento”, articula-se como uma palavra de dupla borda: ora no sentido de separar o dentro e o fora, de polarizar, ora no sentido de fusão ou união. O indecidível em sua face de double bind (duplo elo ou duplo corte) não é a mesma operação executada por um duplo sentido, que pode significar x e y (como é o caso de pas de sense, utilizado por Derrida como “sem sentido” ou “passo ao sentido”).

Ao desdobrar sua análise a outros textos filosóficos, literários e psicanalíticos, novos indecidíveis emergiram na escrita derridiana. Todos esses recursos visam privilegiar as cadeias metonímicas, ao invés dos processos metafóricos mais comprometidos com a ontologia e sua rede de analogias, mimeses e representações, procedimentos tão apreciados pelas teorias literárias. Para designar esse deslizamento metonímico sem lugar de chegada (telos), cuja genealogia não tem um ponto de partida, Derrida cunhou o termo disseminação. Trata-se de um processo que se inicia no múltiplo, no sêmen, rompe com qualquer suposição de um caminho de volta rumo à semente/matriz. Desloca-se fragmentando e engendra uma lógica contraditória que introduz a diferença no interior do mesmo. É um movimento que não pode ser circunscrito pela lógica da castração, da verdade, da lei, da organização do simbólico, da dialética intersubjetiva, da falta ou da fala plena (como se vê em Lacan, por exemplo). A dissimetria do gesto na disseminação à maneira de um desatamento abre uma dificuldade na escritura que não pode mais se apoiar no parapeito do logos nem mesmo na concepção de polissemia e de seus vários níveis semânticos, pois esta ainda representa um momento do sentido, mesmo que plural, dentro do horizonte de significação que reorganiza uma retomada unitária sob a égide dos categoremas ou de uma dialética teleológica e totalizante (ainda que o desígnio final seja apenas presumido, implícito em um devir-síntese, uma re-apropriação).

Essa ideia de ausência de um significado “transcendental” em uma cadeia metonímica de re-envios de rastros, de rastros de rastros (e não de entes ou de significantes, como no esquema de Saussure ou de Lacan), é o que Derrida, em alguns momentos, chama de jogo, entendido como um movimento que amplia infinitamente o domínio da significação, ao invés de restringi-lo ou aniquilá-lo. Essa cadeia metonímica dissociativa não tem “lugar”, não corresponde a nenhum tipo de lógica topológica12.

No processo de disseminação, há toda uma cadeia de indecidíveis que vão tecendo uma intrincada trama nos textos derridianos, como rastro, espaçamento e différance, entre outros13.

Assim como os jogos de linguagem de Wittgenstein, a desconstrução derridiana não é uma técnica, um método que segue um programa e aplica regras. Cada intervenção realizada em um texto é singular e irredutível, como Derrida afirmou muitas vezes. A desconstrução parte do próprio texto que intenciona desconstruir, de seus pontos de guarda, de suas afirmações “auto-evidentes”, de seus conceitos “universais” e dicotômicos, de sua lógica, de seus pressupostos e relações com a metafísica, de suas contradições e pontos de fuga. Deve-se fazer um trabalho incessante para reorganizar a forma e o lugar em que se coloca a questão, rasurar as interrogações, criar termos. O deslocamento do centro da estrutura não responde ao objetivo de se instalar outro centro, mas de liberar as margens que se convertem em diferenças.






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—. Anotações sobre as cores. Trad. Filipe Nogueira y Maria João Freitas. Lisboa: Edições 70 LDA, 1977. Impreso.

—. Fichas. Trad. A. B. da Costa. Lisboa: Edições 70 LDA, 1977. Impreso.

—. Investigações filosóficas. Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Abril Cultural, 1979. Impreso.

—. Tractatus logico-philosophicus. Trad. Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2001. Impreso.

—. Tractatus logico-philosophicus. Obras Completas I (Tratactus Lógico-Philosophicus; Investigaciones filosóficas; sobre la certeza). Trad. Jacobo Muñoz e Isidro Reguera. Madrid: Gredos, 2009. Impreso.

—. Tractatus logico-philosophicus. Obras Completas II (Diário filosófico: 1914-1918; Diários Secretos; Movimentos del pensar; Diários: 1930-1932/1936-1937); Cartas a Russel, Keynes y Moore; Notas sobre lógica; Notas dictadas a G. E. Moore). Trad. Jacobo Muñoz e Isidro Reguera. Madrid: Gredos, 2009. Impreso.

—. Los cuadernos azul y marron. Trad. Francisco Gracia Guillen. Madrid: Tecnos, 2009. Impreso.



Fecha de recepción: 1/3/10
Fecha de aceptación: 6/4/10







Citar como: Guimarães, Rodrigo. “Estrutura, afiguração e “jogos de linguagem” em Wittgenstein.” Revista Laboratorio 3 (2010): n. pag. Web. <http://www.revistalaboratorio.cl/2010/12/estrutura-afiguracao-e-%e2%80%9cjogos-de-linguagem%e2%80%9d-em-wittgenstein/>


  1. Rodrigo Guimarães é Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, Pesquisador Fapemig-Unimontes e Professor Permanente do Mestrado em Literatura Brasileira da Universidade Estadual de Montes Claros-Unimontes. []
  2. Tanto no Tractatus quanto nos outros textos de Wittgenstein, as proposições ou os pensamentos são numerados. Portanto, acompanho a notação presente nessas obras, sendo dispensável a citação de páginas. []
  3. Wittgenstein’s ‘mysticism’, aside from his faith in unity, must come from his believing that one can show when one cannot speak. But without language, nothing can be shown. And to be silent is still to speak” (Blanchot, The Writing of the Disaster 10-11). Blanchot comete outra imprecisão nessas poucas linhas que diz respeito à crença wittgensteiniana na unidade da linguagem. Essa crença está presente apenas no “primeiro” Wittgenstein, desaparecendo nos demais textos, sobretudo em Investigações filosóficas. []
  4. As relações de estruturas (a forma lógica) escapam, de outras maneiras, às formulações metafísicas. Wittgenstein postula, textualmente, que não há monismo ou dualismo filosófico, pois as formas lógicas são inumeráveis (4.128). Geralmente, o que é atribuído ao Tractatus como resquício metafísico é a sua asserção que diz da impossibilidade de uma figuração afigurar o seu próprio método de projeção. Embora, creio eu, existam elementos indubitavelmente metafísicos no Tractatus, há muitas outras formulações que a deslocam completamente, o que lhe confere um lugar de entrechoque de discursos. Muitas das dificuldades das interpretações que se referem ao Tractatus decorrem de sua forma aforística de apresentação, em que os argumentos não são explicitados, o que possibilita uma multiplicidade de interpretações. []
  5. A definição ostensiva é a explicação do significado de uma palavra por meio do gesto de apontar, acompanhado ou não de alguns enunciados, como: Isto é um quadrado; esta cor é o vermelho, etc. Difere, portanto, das explicações eminentemente verbais, que utilizam apenas definições lexicais e não necessitam de uma amostra sensível. As definições verbais “vinculam o termo definido a outras palavras, os termos definidores. Parece ser necessário, portanto, que haja termos ‘indefiníveis’, expressões simples que sejam os elementos terminais de definições lexicais e que se conectem com objetos na realidade por meio de algum tipo de indicação ostensiva” (Glock 122). []
  6. Ao elaborar esta seqüência metonímica interrogativa, espelhei o procedimento textual característico do segundo Wittgenstein, sobretudo em Philosophical Remarks, em que ele nunca “responde” à sua própria questão. Essa resposta-interrogativa também está presente em Investigações filosóficas e em muitos outros textos da fase madura de Wittgenstein, sobressaindo um método mais dissuasivo que persuasivo, bem como um afastamento definitivo das “verdades” tractarianas: “Estou a filosofar agora como uma velha que está sempre a perder qualquer coisa e a procurá-la: ora os óculos, ora as chaves”. (Da certeza 151). []
  7. “Do mesmo modo que os diferentes membros de uma família se parecem uns com os outros sob diferentes aspectos (compleição, feições, cor dos olhos, etc)” (Glock 325). Dessa forma, o conceito de semelhança de família escapa ao procedimento explicativo à maneira de uma definição analítica. Por isso, Wittgenstein recorre à exemplificação, assinalando diversos casos que apresentam um parentesco entre si. []
  8. O jogo de linguagem passou a substituir, na operação de mediação linguagem-mundo, os conceitos precedentes de mostrar, definição verbal, ostensiva, regra e cálculo. Em Investigações filosóficas, Wittgenstein não apresenta uma definição de jogos de linguagem. Ele apenas cita vários contextos em que eles aparecem, tais como os jogos “por meio dos quais as crianças aprendem sua língua materna . . . chamarei também de ‘jogos de linguagem’ o conjunto da linguagem e das atividades com as quais está interligada” (7). O conceito de jogo, assim como o formula Wittgenstein, não pode ser fechado por um limite. Seu contorno é indefinido, não está inteiramente limitado por regras. “Mas, um conceito impreciso é realmente um conceito? Uma fotografia pouco nítida é realmente a imagem de uma pessoa? . . . Não é a imagem pouco nítida justamente aquela de que, com freqüência, precisamos?” (71); “mas interesso-me por aquilo que aqui se tornou impuro” (100). Isso não quer dizer que Wittgenstein passou a promover a “vagueza” da linguagem corrente; apenas considerou que ela é uma característica da linguagem, e sua importância é de resistir à exigência dogmática da determinabilidade do sentido. Contudo, o inexato deve ser considerado seguindo um propósito, se ele satisfaz ou não os requisitos para a compreensão de um dado contexto. []
  9. As notas que dizem respeito ao “besouro” fazem parte do que ficou conhecido como “o argumento da linguagem privada”. Nesse ponto, Wittgenstein polemiza contra a possibilidade de uma linguagem primária fenomenológica que se refere às experiências, sensações e pensamentos imediatos. Este teatro mental acessível apenas ao indivíduo constitui uma instância inalienável e, epistemicamente, privado. Isto é, não há padrões de correção guiados por regras de caráter público que podem ser verificadas. Portanto, acredita Wittgenstein, não se pode invocar um conteúdo privado no debate filosófico, ou, dito de outra forma, os conteúdos da caixa e sua natureza são irrelevantes para o significado da palavra “besouro”. []
  10. Evidentemente, a objeção pode recorrer à clássica argumentação sofística: esse entrelaçamento de jogos não constituiria um outro jogo? Sim, mas com outras regras. []
  11. Em seus primeiros escritos, Gramatologia, A escritura e a diferença, A voz e o fenômeno, editados em 1967, Derrida analisa como a linearidade da escrita recalcou o pensamento simbólico pluridimensional e se solidarizou à economia, à técnica e à ideologia por meio dos processos de capitalização, de sedentarização e de hierarquização do sentido. Pode-se acrescentar ainda como estas operações minimizam ou anulam os espaços de pensabilidade e os procedimentos de experimentação literária. []
  12. Ao recorrer às comparações, Derrida sublinha as “diferenças” presentes no cerne das analogias, que, a seu ver, são mais interessantes, incisivas e determinantes do que a identidade. []
  13. Para um aprofundamento dessa questão, qual seja, da ampla gama de “indecidíveis” utilizados por Derrida e sua relação com a literatura contemporânea, confira o meu ensaio intitulado “Diálogos entre a literatura contemporânea e o pensamento de Jacques Derrida”, disponível em http://seer.fclar.unesp.br/index.php/letras []